segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Horário de Verão

por Mauricio de Olinda

A panela apitou. Ele, que sorria à toa, correu para adicionar mais água. São engraçados esses primeiros dias de horário de verão. Parece que está tudo fora do lugar, e está. Enquanto ele esperava, pensava. Passou pelo trânsito engarrafado, com os caminhoneiros apressados, as cabeças desreguladas. Ele tentou, jura não ter esquecido de nada, o resto é que parecia ter esquecido da vida. O chefe não foi trabalhar pela manhã, as máquinas quebraram, os funcionários públicos estavam em greve, as colegas foram fazer regime, mas ele... Ele estava tranqüilo. Tantas coisas pra pensar, poucas coisas a fazer. Tanta gente sem fazer, com poucas coisas a pensar sobre tudo o que fazer. Apenas fazer. Mas como ele não tinha muitas coisas pra fazer, e sim para pensar, fez o almoço. E enquanto a comida cozia, a água fervia, a panela apitava, ele fumava e pensava. Na tranqüilidade daquela desordem coletiva que àquela hora a menos provocava na cabeça dos alheios. Tanta gente com tanta coisa pra fazer, com tão pouco para pensar, não podem perceber o que ele pensava ou fazia, e tudo que ele fazia era o seu almoço. Invenções gastronômicas podem ser geniais nesses dias de desordem. A panela continuava a apitar frenética com a água fervente do cozimento. Para o prato principal, que tal algo refogado com molho branco? Adicionar lentilhas com o herba life das meninas... O cheiro verde direto na frigideira pode queimar, provocar fumaça e emporcalhar a cozinha toda. Se alguém chegar pode ficar bravo! Ele pensava em tudo isso, e mais as coisas que ele tem pra pensar, e tudo essa junção entre pretérito, presente e futuro produziam nele cócegas psicodélicas. Então ele ria, enquanto a panela parava de apitar, a comida começava a queimar, as pessoas começavam a chegar, as maquinas começavam a funcionar e àquela hora perdida terminava de passar. Enquanto a normalidade assustadora voltar a lhe assombrar.

9 comentários:

Amatuzzi disse...

"O cheiro verde direto na frigideira pode queimar, provocar fumaça e emporcalhar a cozinha toda. Se alguém chegar pode ficar bravo!"

hehehe

Amatuzzi disse...

"e tudo essa junção entre pretérito, presente e futuro produziam nele cócegas psicodélicas".

Atenção Maurício: toda essa junção produzia nele...

Gostei da pira, do ritmo frenético, das idéias se atravessando, mas precisa caprichar nas concordâncias e acentos ("maquinas começavam a funcionar e àquela hora perdida")

No fim das contas, achei mto bom. parabéns! Continue escrevendo e pode sempre publicar aqui.

Michele Torinelli disse...

hehehe, crítica literária do Amatuzzi.

Legal ciorímau. E a cama de viúva? É lenda? Precisarei em breve... Pois o fim da casa trushna se aproxima. Um pouco triste mas... o mundo dá voltas, a vida continua e lá vamos nós.

Monter disse...

Super gostei, Ciorimal.
;]

Amatuzzi disse...

Cama de viúva ja era

Rodrigo Boca disse...

Porra, gostei pra caramba da "viagem a irrealidade cotidiana"! Superficialmente Bukowskiano!

Guilherme Beá disse...

"e tudo essa junção entre pretérito, presente e futuro produziam nele cócegas psicodélicas".

Atenção Maurício: toda essa junção produzia nele...

Gostei da pira, do ritmo frenético, das idéias se atravessando, mas precisa caprichar nas concordâncias e acentos ("maquinas começavam a funcionar e àquela hora perdida")

No fim das contas, achei mto bom. parabéns! Continue escrevendo e pode sempre publicar aqui.

Anônimo disse...

"Invenções gastronômicas podem ser geniais nesses dias de desordem."

humhumhum

Cajinha disse...

Ciorímal,
você escreve muito bem.
O legal é que a concordância é sua - e você só concorda quando quer.

Abraços,
Caja